terça-feira, 12 de dezembro de 2017

CRÔNICA DE MINAS GERAIS

Em homenagem aos 120 anos de BH!

São João Del Rey, homem Formoso, mas sem rumo, se enrabichou com Mariana - que Resplendor!, moça Viçosa e Virgem da Lapa - uma Fruta de Leite, rapariga de encher a boca e um Fervedouro aos olhos. São João Del Rey, apaixonadíssimo, deu a ela de presente Ouro Preto, Rubelita, Turmalina e alguns Cristais (Cascalho Rico!), em frente a um Belo Horizonte, Montes Claros, uma Bela Vista, Belo Vale - Campo Florido – aos sons de Papagaios e de uma Cachoeira Dourada. Sua verdadeira namorada, Maria da Fé, carinhosamente apelidada de Estrela Dalva, não gostou nada quando soube da notícia e ficou com uma Formiga atrás da orelha: cismas de moça sem Bom Repouso. Exigiu assim Ouro Branco - Ouro Fino! -, Pedra Azul e Esmeraldas como vingança, e quis se casar em uma Capelinha, logo chamando Juiz de Fora e Padre Carvalho para fazer Nova União e Sacramento.
Maria da Fé, perdida de encantos, ligeira contou para sua mãe, dona Leopoldina, de família tradicional Medeiros Teixeiras. A futura sogra, que rezava diariamente para Santo Antônio de Itambé, queria o quanto antes que a filha tivesse bom sobrenome e renda. São João Del Rey tinha afirmado que era filho de um tal Barão de Cocais e daria tudo a sua filha. Cansada da brincadeira de namoro, como ela dizia: “Recreio de jovens”, ansiava marcar Datas, na Espera Feliz, com Boa Esperança, achando esse partido tudo mil Maravilhas. Dona Leopoldina, de pronto, asseverou Campanha: “Unaí os dois!”. Ele, receoso, fez até Juramento, porém, como estava sem Patrocínio, deu a mãe da moça apenas de garantia uma Moeda, ou melhor, uma Prata, Pratinha, Açucena de promessas, para o Bom Sucesso do casório e contribuição nas festanças.
No entanto, como São João Del Rey era aquele pastor da malandragem e vivia cheio de Carneirinhos, assim ele se intitulava entre os amigos Elói Mendes e Jacinto, sobre suas inúmeras namoradas. A Contagem se perdia em cada município. Um falso cristão nato, Coração de Jesus, relembrava vez-ou-outra de algumas por Consolação e tesão: “saudade da bela Januária que conheceu na praia de Ipanema. A morena de lindos seios, Heliodora. Cristina uma tentação do interior. Jordânia um espetáculo! Joaíma, trem fogoso, foi debaixo de Paineiras. Marliéria até hoje liga a cobrar mais. Natércia? Acho que era esse o nome da grandona de bom rabo. As irmãs Galileia, Jesuânia e Ervália se apaixonaram de primeira e fizeram suruba e Romaria. Rubelita gostava de 4, ai, ai... Cássia foi só uma vez, coisa rápida, enrolados em uma Bandeira atrás de uns Matozinhos. Virgínia chupava que era uma beleza! Paula Cândido foi atrás de um Mato Verde. Além disso tinha umas Três Marias enganadas por aí. Assim ele ia, mascando Cana Verde, pondo a memória e a punheta em funcionamento, como um bom Pescador de Riachinho. Era ele Pavão de correntes e garbo, ria por ser apelidado por Lima Duarte de senhor Pintópolis. Ilustre e famigerado safado no Comercinho de belas Perdizes. Afirmava a José Raydan e Carlos Chagas que tudo era culpa por ter Três Corações.
Nessas empreitadas, não perdia também o passeio aos bares. Para ele alcunhado sarcasticamente de Oratórios. Foi num desses que conheceu Presidente Juscelino, Presidente Kubitschek e ganhou mordomias. São João Del Rey, viciado em jogo de Tabuleiro e um inveterado bêbado, fã de Água Boa, vivia diariamente de Ressaquinha (filho de Dionísio?), sabia que copo (além de rabo de saia) era seu Reduto. Maria da Fé correu e comprou vestido com Barra Longa. Não ouvindo os bons conselhos do seu padrinho Conselheiro Lafaiete, acreditando que teria depois do matrimônio Casa Grande, talvez uma Chácara, quem sabe um Chalé, quando descobriu as andanças do patife, com Olhos-d’Água, percebeu que nem a Senhora dos Remédios curaria a situação e sua dor na Coluna. Ele dizia para ela não se preocupar, já cansado da Ladainha costumeira, pois tudo era um Passa Tempo.
Ela, uma pobre coitada, se enchendo de Perdões, em Poço Fundo, foi abandonada no altar - grávida! - e jogada na Medina por todos, levando consigo má Fama. Triste, sem Consolação, cheia de remorsos, chorando Bicas até encher um Baldim, ela teve uma Luz: montou com Pai Pedro um Bom Despacho na Borda da Mata para uma nova Conquista. De nada adiantou. Maria da Fé tomou atitude Extrema: afogou-se em Lagoa Grande, um Reduto nos Confins do Córrego Fundo, Sem-Peixe, perto de um pé de Manga (Ubá?) e de uma Goiabeira, após tomar Peçanha. Foi enterrada como indigente em Além Paraíba. Ele não chorou nem um Pingo d’Água e se despediu de todos Vazante: “Passabém!”.
Após o ocorrido, com medo de tomar Tiros do pai da noiva - Coronel Murta - Guarda-Mor, da mãe Pimenta de raiva e com Machado em mãos e já prevendo as Carrancas dos familiares, São João Del Rey, em Passos ligeiros, calçou Alpercata, deu Volta Grande e fugiu quebrando Porteirinha, Rio Acima por Veredinhas, na busca de atravessar Fronteira. Pediu empréstimo para cada um dos seus irmãos e primos: Teófilo Otoni, Sabará, Tiradentes, Mário Campos, Cláudio, Wenceslau Braz e Betim: “Passa-Quatro, Passa-Vinte tostões...”, tudo na tentativa de conseguir uma Nova Era, um lugar novo e Divino. O vadio pegou seu Bugre, Vermelho Novo, rezando para todos os santos e santas possíveis: São Francisco, São Geraldo, Santo Hipólito, Santa Rita do Sapucaí, Santa Maria de Itabira, Santa Bárbara e outros terços mais. Na fuga seguiu no céu Estrela do Sul. Enfrentando Entre Rios terreno Barroso, São João Del Rey foi atrás de algum Pouso Alegre e Bom Repouso. Creio que escapou! Mas até hoje ele está perdido pelas Minas Gerais.
(Vinícius Magalhães) #BH120Anos

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

QUADRAS D'ELA


Já que você comemora
Nosso término com festa.
Por que você se decora
Com esse pranto que resta?
*
O que tem nesse peito então?
Parece que dentro bate,
Nessa fria tampa de caixão,
Alguém a pedir resgate.
*
Logo quando eu morrer
Te peço só um favor:
Se for pra me esquecer,
Esqueça-me com amor.
*
Tenho o meu coração em pedaços.
No peito a dor em vários rombos.
Pegue uma porção dos meus fracassos
E dê de comida aos pombos.
(VFM)

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Soneto para um Amigo


Para Daniel Ottoni

Duas interrogações crescem enrugadas.
E são, quem sabe, perguntas sem respostas.
Dúvidas torcendo nas arquibancadas,
Curiosidades que nos são impostas.
Há um encontro. Há uma afinidade.
Encantos que tiramos de algum cofre.
Um Amigo que nos traz a felicidade
E abraça tudo que a gente sofre.
São lembranças que despertam por minuto
O que vivemos nas furnas do passado.
São palavras fazendo nossa história.
Ter um Amigo é ser absoluto?
Por certo, um futuro antecipado.
Ter um Amigo é se encher de glória?
(VFM)

Quadra para Fernando Pessoa


(Aos 129 anos de morte)

Cada palavra tem uma falsidade
Que seja dita para quem a sustém.
Isso me obriga a escutar-me bem
Pra que nas mentiras ache a verdade.

(VFM)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

QUADRINHA


Ah! Quando você disse pra mim "Chega!"
Eu quis realmente ouvir baixinho.
Queria que fosse algum passarinho
Que solto no meu peito sair se nega.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

DON'T STOP, CARLOS!


Pelos 115 anos de Drummond

stop.
a vida não parou, Carlos.
há gente morrendo parada em leitos múltiplos de hospitais.
o carro parado espera para levar um pobre coitado ao cemitério.
lá há flores e quem sabe alguma paz.
o outro automóvel parado está esperando o sinal abrir,
enquanto dentro dele um figurão fala ao telefone
sobre os seus milhões, mansões, instituições.
sim, Carlos, há milhões nas mãos de poucos e rosas murchas
nas falanges sujas de crianças famintas.
elas oferecem de mesa em mesa os seus desesperos.
sim, Carlos, ficamos parados observando a vida que segue
a 90km/hora sem ser multada.
stop.
o relógio das igrejas não param de tocar e o povo segue moribundo
para ouvir palavras de um livro dado aos negócios.
Carlos, lágrimas não pararam de correr, seguem pelos olhos injustiçados,
talvez seja um cisco do minério da sua terra,
onde se faz dinheiro e montanhas de dinheiro,
cisco que atrapalha o povo a contemplar a poesia.
Carlos, você se foi mas suas palavras andam pelas bocas do mundo.
infelizmente há canalhas que usam erroneamente
seu nome para fazer o povo parar de lutar.
stop.
o automóvel parou na porta do restaurante mais caro da cidade.
o povo perambula atrás de trabalho e dos filhos mortos pela rua.
catástrofes não pararam, Carlos.
a educação, sim, parou há uns dois séculos atrás.
poesia é um perigo, Carlos! dizem que ela constrói vândalos.
tem gente que quer parar o mundo, ou destruí-lo.
o amor, Carlos, segue nos aplicativos e podemos comprar
com dinheiro mais amor e mais likes.
stop.
a alegria anda parada entupindo bueiros,
a desigualdade lavando os carros dos patrões.
Carlos, apesar disso, continuamos a sonhar.
sonhamos carregando culpa, mas sonhamos,
mesmo com homens gradeando nossas paisagens
e gritando com vozes imperiais:
stop!
a vida parou na contramão
ou foi o homem na sua mistificação?
(VFM)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

MAMÃE ME CHAMA


Para Madre

Mamãe me chama, mas fala que ainda tenho que esperar alguns meses para viver essa confusão do mundo. Alimenta-me com prazer lácteo e cuidado próprio, porém sabe que algumas coisas terei que engolir a seco e também saber se arrepender.
Mamãe me chama de amor, benzinho, filhote mesmo no vórtice das cólicas, dos momentos insones e de sensações que lhe causo. Eu respondo chutando o balde porque já quero inaugurar os carinhos de mamãe e poder responder por telefone que estou bem. Estou interessado em olhá-la olho no olho e chorar diante de sua beleza. Quero assim reclamar e entender qual o motivo que tive que esperar tanto tempo.
Mamãe me chama rodeada de gente como num balcão de bar. Não sabe ela que tenho um impasse entre os seus dois seios. Quero chamá-la! Reclamo em lágrimas a conta a pagar.
Mamãe me chama para me ver andar cambaleante e poder virar a paixão de uma fotografia. É dente na manchete que nasce e a antologia do que cai.
Mamãe me chama pela nota baixa aos berros e não quer ouvir as palavras desamparadas que babam da minha boca. Vou alcançando mamãe na vida e entendendo os seus sentimentos e ingredientes.
Mamãe me chama. Tenho que acordar cedo. Pão na mesa e o descobrimento do pânico com o relógio. Mamãe me apresenta o chefe e o trabalho. Mamãe é o lar, o colo, o chinelo, o beijo e a vida. Esqueço a blusa de frio, a chave de casa, o guarda-chuva. Mamãe briga comigo e fala que eu não estou funcionando muito bem.
Mamãe me chama brava porque estou rabiscando nas paredes versos do exílio e me proíbe de estragar o patrimônio que será meu com essa bagunça que sai do coração.
Mamãe me chama para dar conselhos. Xinga sobre os meus inúmeros erros. Mas mamãe também me elogia pelo o que aprendi errando e o que apresento a ela de novo.
Mamãe me chama para se despedir já que decidi morar distante. Mamãe chora protetora e feliz pela tecnologia dos meus atos. Na mala vai o clima cauteloso da liberdade e um perfuminho da saudade. Mamãe chora longe e perto, perto e mais longe no banheiro. Mamãe custa a entender que estamos indelevelmente ligados no mesmo cordão do infinito, independente dos erros e acertos que fazemos na vida.
Mamãe me chama Mamãe me vê grande. Mamãe me vê adulto. Mamãe me vê velho. Eu vejo mamãe como sempre a vi: linda. Lindíssima!
Mamãe me chama. Mamãe me chama. Mamãe me repete. Mamãe se repete. Mamãe sempre há de me chamar. Eu hei de sempre chamar por mamãe, pois mamãe é a diversão de ser minha eterna primeira palavra.
(VFM)